ao percorrer o corredor da galeira, frio e branco, sentia uma corrente de ar ténue soprando a minha cara. nas paredes, as lâmpadas pequenas apontavam para quadros de cores de verão, onde as chamas dos pincéis dos mestres haviam deixado indeléveis queimaduras. estava sozinho no corredor e as vozes mais próximas atravessavam duas salas até chegar a mim - podia sorrir sozinho e deleitar-me no prazer íntimo de quem se arrepia perante a arte, mesmo sem saber a técnica, o meio, e o nome do pintor.
a luz escorria pelas paredes abaixo detendo-se em cada desenho e pintura, como em adoração de si própria. eu era apenas uma mancha de escuridão, para quem a ausência de luz era efeito do desprezo que lhe merecia. porque ali não era eu sujeito da observação, como o monge que não respira, antes é respirado pelo ar que lhe passa pelas narinas até aos pulmões.
as vozes afastavam-se e eu ficava mais sozinho. tão sozinho que me deitei no chão, onde estremeci até se apagarem todas as luzes.
Wednesday, July 16, 2008
Friday, June 27, 2008
these days
it’s true that i’m seen smoking
before breakfast, these days
and that a boy with hair of clouds
duck-taped something square and foil wrapped
to the inside of a newspaper kiosk
for me.
it’s true i drink whisky neat
bymyself
before bed, and in dark bar stools.
and sometimes
i leave the party
before the lines have all been drawn
and go jump fences.
it’s true i carry a toothbrush in my purse
just in case,
and i have the number to a good lawyer
tattooed on my wrist.
it’s true i recite to my friends
survival skills for bears, mountain lions
and the FBI.
it’s true i sometimes skip work
to lie on the roof and count my blessings
and my sins to strangers,
and it’s true i pour myself a stiff drink
before calling home, most times,
and i always read the obits first.
but i’m still sweet, you see,
and hug strangers just because.
i smile when i ride my bicycle
(which is often, these days)
and most of those fences
take to parking lots and playgrounds.
plus the package
in tin foil
had not drugs, nor bombs, my love
just a book
for the plane.
before breakfast, these days
and that a boy with hair of clouds
duck-taped something square and foil wrapped
to the inside of a newspaper kiosk
for me.
it’s true i drink whisky neat
bymyself
before bed, and in dark bar stools.
and sometimes
i leave the party
before the lines have all been drawn
and go jump fences.
it’s true i carry a toothbrush in my purse
just in case,
and i have the number to a good lawyer
tattooed on my wrist.
it’s true i recite to my friends
survival skills for bears, mountain lions
and the FBI.
it’s true i sometimes skip work
to lie on the roof and count my blessings
and my sins to strangers,
and it’s true i pour myself a stiff drink
before calling home, most times,
and i always read the obits first.
but i’m still sweet, you see,
and hug strangers just because.
i smile when i ride my bicycle
(which is often, these days)
and most of those fences
take to parking lots and playgrounds.
plus the package
in tin foil
had not drugs, nor bombs, my love
just a book
for the plane.
Monday, June 23, 2008
poder
à luz estranha das tochas decorativas do jardim, sob o ar denso do final das tardes de verão, com as encostas tímidas ainda insinuadas no fim da paisagem onde o sol se pôs, conversámos de pé.
fiz-lhe companhia naquela noite até ali, mas sabia que em breve ele teria de ir aqui e além apertar as mãos dos outros. os fatos escuros passeavam-se por ali, uns sós, outros acompanhados. os gordos encostavam-se a uma coluna ou a uma ombreira de porta – olhando o jardim desinteressados, bocejando o tédio cá para fora, desejando o sono lesto sob o calor húmido. geralmente acompanhados de suas senhoras, que tão bem decoravam o espaço, valha-nos deus com aquelas vestes absurdas de verde, de amarelo, de tantas cores, e aquelas jóias de outros tantos tons que nos passavam diante dos olhos sem que tivéssemos sequer tempo de lhes apreciar a beleza, tal a rapidez com que nos apercebíamos da fealdade do conjunto.
o jardim estava separado por um balcão de pedra esculpido em pilares polidos. junto à casa, o chão de pedra dificultava os saltos das senhoras e lá em baixo, na relva prateada pelo luar, junto à pequena fonte de inspiração clássica, passeavam de copo em riste os outros que não se rendiam ao sono e ao tédio. por ali voavam palavras distantes dos assuntos do trabalho, pouco importava a situação económica do reino-unido ou as explorações de petróleo no médio-oriente. a situação política do continente asiático também se ficava no chão de pedra onde as senhoras custavam a equilibrar-se.
enquanto ele cumpriu o seu negócio, aproveitei a noite para raros momentos de ócio em tão belo jardim. longe do sol abrasador e das lanças do calor, aproveitei as escadas que desciam até à relva e o caminho escurecido pelas folhagens em arcada para fazer descair, ponderadamente e com gesto bem cuidado, um pouco a alsa do ombro direito, anunciando o pescoço, onde descansava o fino e simples fio de prata. o copo seco foi atirado para cima de uma bandeja que passava, trocado por outro, com a dose de espumante para desfazer o sabor dos chocolates horríveis que me tinham obrigado a comer, vindos sabe-se lá donde. e ali foi o copo vazio trocado por um cheio, para que se cumprisse o destino das coisas.
a lua brilhava forte, e o ar quente acolhia o seu brilho como num abraço, a relva parecia húmida de tanto luar. sobre a prata da relva e sob o clarão da lua, encostei-me à bancada da varanda, feliz. de ombros nus ao calor, um pouco turva e confusa de sentidos, de alcoól e de conversas alheias. sentia no pescoço aquela brisa de verão que por si só nos faz sorrir. outro se juntou, elegante, gravata escura, cigarro aceso, puxando um fumo sereno. trazia um e outro copo, cheios. passou-me um com uma boa noite aconchegante e vibrei. tirei apenas uma mão do balcão da varanda, para lhe receber o copo, agradecendo com um olhar nos olhos que se deslocou em aceno para o seu peito. as palavras de circunstância são nestas ocasiões absolutamente desprovidas de qualquer substância, como aliás, lhes costuma ser característico. por isso mesmo, me falou sem enfeites logo após perguntar o meu nome. em tons de sedução tão óbvios quanto motivantes e eu sentia-me o centro, o motor da sua vaidade.
o meu corpo aberto, sob um vestido de ofensiva e pecadora transparência, mostrava-se-lhe com impulso próprio. e eu que era apenas convidada como acompanhante... lá em cima a minha companhia, olhava pelo canto do olho a minha aventura descabida, despreocupado. senti o olhar e abandonei-me. o meu poder era infinito naquele momento. em mim se concentravam as belezas e as forças do mundo todo daquele momento daquelas vidas. e o poder de ser eu, de provocar despreocupação por amor profundo, de suscitar excitação por gozo puro... era esse o meu desígnio por minutos.
o próprio poder era eu. bastava-me querer que o rídiculo cobriria de negro aquele homem e nem uma ponta de vergonha o tocaria por isso. não era ele que me excitava, mas sim eu sobre ele. não era amor ali na bancada da varanda, era poder. e mesmo assim, apeteceu-me por instantes o abandono de tudo, entregar-me. encostar nu o peito ao peito forte de outro, dele ali tão perto e tão disponível, tão entregue e desprotegido.
perderia a noção de quem seria afinal o poder. porque o poder de seduzir está na capacidade de negar, mesmo que no último momento os sopros do prazer. a corporização reduz o poder ao mero desejo mortal, comum ensejo de homens e mulheres que não se amam. por isso mesmo, o olhar que diz sim é um corpo que diz não. é isso que me eleva ao orgasmo, porque é esse o meu poder.
os copos já vazios, sob a bancada, lá em baixo o rio ria-se de mim, sentia-me intimamente palpitar.
a conversa durou o tempo exacto para que ninguém desmotivasse, pelo contrário. virei as costas com boas noites delicadas, um olhar demorado ainda o agarrou uns instantes enquanto me afastava. seguiu-me, e sem que soubesse, tremi e senti o terrível vazio do início de noite. mas eis que dou os braços à minha companhia. ao meu homem. e me vou.
fiz-lhe companhia naquela noite até ali, mas sabia que em breve ele teria de ir aqui e além apertar as mãos dos outros. os fatos escuros passeavam-se por ali, uns sós, outros acompanhados. os gordos encostavam-se a uma coluna ou a uma ombreira de porta – olhando o jardim desinteressados, bocejando o tédio cá para fora, desejando o sono lesto sob o calor húmido. geralmente acompanhados de suas senhoras, que tão bem decoravam o espaço, valha-nos deus com aquelas vestes absurdas de verde, de amarelo, de tantas cores, e aquelas jóias de outros tantos tons que nos passavam diante dos olhos sem que tivéssemos sequer tempo de lhes apreciar a beleza, tal a rapidez com que nos apercebíamos da fealdade do conjunto.
o jardim estava separado por um balcão de pedra esculpido em pilares polidos. junto à casa, o chão de pedra dificultava os saltos das senhoras e lá em baixo, na relva prateada pelo luar, junto à pequena fonte de inspiração clássica, passeavam de copo em riste os outros que não se rendiam ao sono e ao tédio. por ali voavam palavras distantes dos assuntos do trabalho, pouco importava a situação económica do reino-unido ou as explorações de petróleo no médio-oriente. a situação política do continente asiático também se ficava no chão de pedra onde as senhoras custavam a equilibrar-se.
enquanto ele cumpriu o seu negócio, aproveitei a noite para raros momentos de ócio em tão belo jardim. longe do sol abrasador e das lanças do calor, aproveitei as escadas que desciam até à relva e o caminho escurecido pelas folhagens em arcada para fazer descair, ponderadamente e com gesto bem cuidado, um pouco a alsa do ombro direito, anunciando o pescoço, onde descansava o fino e simples fio de prata. o copo seco foi atirado para cima de uma bandeja que passava, trocado por outro, com a dose de espumante para desfazer o sabor dos chocolates horríveis que me tinham obrigado a comer, vindos sabe-se lá donde. e ali foi o copo vazio trocado por um cheio, para que se cumprisse o destino das coisas.
a lua brilhava forte, e o ar quente acolhia o seu brilho como num abraço, a relva parecia húmida de tanto luar. sobre a prata da relva e sob o clarão da lua, encostei-me à bancada da varanda, feliz. de ombros nus ao calor, um pouco turva e confusa de sentidos, de alcoól e de conversas alheias. sentia no pescoço aquela brisa de verão que por si só nos faz sorrir. outro se juntou, elegante, gravata escura, cigarro aceso, puxando um fumo sereno. trazia um e outro copo, cheios. passou-me um com uma boa noite aconchegante e vibrei. tirei apenas uma mão do balcão da varanda, para lhe receber o copo, agradecendo com um olhar nos olhos que se deslocou em aceno para o seu peito. as palavras de circunstância são nestas ocasiões absolutamente desprovidas de qualquer substância, como aliás, lhes costuma ser característico. por isso mesmo, me falou sem enfeites logo após perguntar o meu nome. em tons de sedução tão óbvios quanto motivantes e eu sentia-me o centro, o motor da sua vaidade.
o meu corpo aberto, sob um vestido de ofensiva e pecadora transparência, mostrava-se-lhe com impulso próprio. e eu que era apenas convidada como acompanhante... lá em cima a minha companhia, olhava pelo canto do olho a minha aventura descabida, despreocupado. senti o olhar e abandonei-me. o meu poder era infinito naquele momento. em mim se concentravam as belezas e as forças do mundo todo daquele momento daquelas vidas. e o poder de ser eu, de provocar despreocupação por amor profundo, de suscitar excitação por gozo puro... era esse o meu desígnio por minutos.
o próprio poder era eu. bastava-me querer que o rídiculo cobriria de negro aquele homem e nem uma ponta de vergonha o tocaria por isso. não era ele que me excitava, mas sim eu sobre ele. não era amor ali na bancada da varanda, era poder. e mesmo assim, apeteceu-me por instantes o abandono de tudo, entregar-me. encostar nu o peito ao peito forte de outro, dele ali tão perto e tão disponível, tão entregue e desprotegido.
perderia a noção de quem seria afinal o poder. porque o poder de seduzir está na capacidade de negar, mesmo que no último momento os sopros do prazer. a corporização reduz o poder ao mero desejo mortal, comum ensejo de homens e mulheres que não se amam. por isso mesmo, o olhar que diz sim é um corpo que diz não. é isso que me eleva ao orgasmo, porque é esse o meu poder.
os copos já vazios, sob a bancada, lá em baixo o rio ria-se de mim, sentia-me intimamente palpitar.
a conversa durou o tempo exacto para que ninguém desmotivasse, pelo contrário. virei as costas com boas noites delicadas, um olhar demorado ainda o agarrou uns instantes enquanto me afastava. seguiu-me, e sem que soubesse, tremi e senti o terrível vazio do início de noite. mas eis que dou os braços à minha companhia. ao meu homem. e me vou.
Thursday, June 19, 2008
desilude-se quem se ilude
nada é tudo o que tenho,
todavia, nada mais quero
que o vazio sou eu e tudo é ilusão.
nada é tudo que tenho,
e tudo o que tenho me basta
para passar de mão em mão,
tudo o que cada vez mais sei ser ilusão.
todavia, nada mais quero
que o vazio sou eu e tudo é ilusão.
nada é tudo que tenho,
e tudo o que tenho me basta
para passar de mão em mão,
tudo o que cada vez mais sei ser ilusão.
Wednesday, June 18, 2008
sob(re) os escombros
sob os escombros
escondem-se as almas,
negras dos tristes.
não tem fé em si próprio
quem toda a vida espera por deus.
sobre os escombros
erguem-se as vozes
luminosas dos homens.
tem a força de deus
quem toda a vida tem esperança em si.
para esses brilha o sol, luz a lua.
escondem-se as almas,
negras dos tristes.
não tem fé em si próprio
quem toda a vida espera por deus.
sobre os escombros
erguem-se as vozes
luminosas dos homens.
tem a força de deus
quem toda a vida tem esperança em si.
para esses brilha o sol, luz a lua.
Wednesday, June 04, 2008
bondades ao domingo
a igreja, alta, imponente, trazia-me uma calma que outros edifícios não podiam trazer. as palavras sábias da fé brotavam qual água de nascente pela voz do padre, mensageiro dos desígnios divinos dos mais altos altares do universo. palavras calmas submergiam-me diariamente numa transe inconsciente, uma meditação transcendente que ultrapassava o meu raciocínio e se fundia com cântigos e orações.
e a igreja, o altar, o crucifixo, as figuras, o tecto, as abóbadas, as arcadas, os pilares e colunas, a talha perfeita e bem cuidada contrastavam com o abandono da minha rua, com a sujidade da cidade. as palavras de deus estavam ali esculpidas e deus chorava suas lágrimas e espalhava seus ensinamentos àquele rebanho.
à saída, ainda evolvido no espírito santo e nas boas-graças do senhor, entornei umas moedas da minha carteira para um pobre amputado que chorava ao portão do adro divino. depois de ter pecado a semana toda, de ter cometido quase todos os pecados mortais e outros de menor porte, só assim poderia purgar minha consciência das ofensas a deus. o amputado ficava sempre a ganhar umas moedas para o que lhe conviesse. e que seria da minha consciência não estivesse ele ali? não há terços nem castigos que me descansem como umas bondades ao domingo.
e a igreja, o altar, o crucifixo, as figuras, o tecto, as abóbadas, as arcadas, os pilares e colunas, a talha perfeita e bem cuidada contrastavam com o abandono da minha rua, com a sujidade da cidade. as palavras de deus estavam ali esculpidas e deus chorava suas lágrimas e espalhava seus ensinamentos àquele rebanho.
à saída, ainda evolvido no espírito santo e nas boas-graças do senhor, entornei umas moedas da minha carteira para um pobre amputado que chorava ao portão do adro divino. depois de ter pecado a semana toda, de ter cometido quase todos os pecados mortais e outros de menor porte, só assim poderia purgar minha consciência das ofensas a deus. o amputado ficava sempre a ganhar umas moedas para o que lhe conviesse. e que seria da minha consciência não estivesse ele ali? não há terços nem castigos que me descansem como umas bondades ao domingo.
Wednesday, May 28, 2008
onde o mar
o mar onde vivo
é onde quero morrer
em chamas, ao éter levantadas como punhos incandescentes.
o mar onde moro
é onde quero ficar desalojado,
despojado, indigente e vagabundo.
o mar onde voo
é onde cairei sem asas,
rastejante, afundado em ondas de choque.
onde o mar vive,
sou eu que respiro no sussuro das marés,
onde a terra me abraça, o sol em fortes feixes
é deus no ar e nos trovões.
é onde quero morrer
em chamas, ao éter levantadas como punhos incandescentes.
o mar onde moro
é onde quero ficar desalojado,
despojado, indigente e vagabundo.
o mar onde voo
é onde cairei sem asas,
rastejante, afundado em ondas de choque.
onde o mar vive,
sou eu que respiro no sussuro das marés,
onde a terra me abraça, o sol em fortes feixes
é deus no ar e nos trovões.
Friday, May 23, 2008
o caixão
as mentiras são as balas
as desgraças
e a fome,
as mentiras são as pragas,
as doenças
e a dor,
as mentiras são o choro
o abandono
e a solidão,
as mentiras são as valas no chão,
são a morte,
o caixão.
as mentiras hoje matam gente de verdade,
a verdade essa, porém, não morre de mentiras.
as desgraças
e a fome,
as mentiras são as pragas,
as doenças
e a dor,
as mentiras são o choro
o abandono
e a solidão,
as mentiras são as valas no chão,
são a morte,
o caixão.
as mentiras hoje matam gente de verdade,
a verdade essa, porém, não morre de mentiras.
Friday, May 09, 2008
Thursday, May 08, 2008
Thursday, April 24, 2008
sem título
sentes o mar
até que a saliva se tange
de sal,
de vida,
de amor,
sopras as velas interiores,
enches pulmões e alma
de vento,
horizontes,
de cor,
lastimas exangue a ignorância
nuclear do teu vazio
de ti,
dos outros,
da dor,
cantas ao vento,
contra deuses e poderes,
foste sempre o erro de quem não erra,
soubeste que ser poeta é elevar aos céus
os sentidos da terra.
até que a saliva se tange
de sal,
de vida,
de amor,
sopras as velas interiores,
enches pulmões e alma
de vento,
horizontes,
de cor,
lastimas exangue a ignorância
nuclear do teu vazio
de ti,
dos outros,
da dor,
cantas ao vento,
contra deuses e poderes,
foste sempre o erro de quem não erra,
soubeste que ser poeta é elevar aos céus
os sentidos da terra.
Thursday, April 10, 2008
tu
vieste amanhecer-me
e agora sou um campo pleno
brilha dourado
ondula sereno
deita-me as sementes como beijos,
quando te deitares a meu lado.
percorre-me de mãos dadas com o silêncio,
os caminhos do vento que me esculpiu.
e agora sou um campo pleno
brilha dourado
ondula sereno
deita-me as sementes como beijos,
quando te deitares a meu lado.
percorre-me de mãos dadas com o silêncio,
os caminhos do vento que me esculpiu.
Friday, March 28, 2008
pedras contra canhões
a ofensiva dirigida erguida edificada
não é mais alta que a muralha
dos nossos corpos levantados numa só alma.
a lama negra em que rastejam
os canhões que nos apontam
os silvos de medos com que nos matam
não são mais robustos que a couraça resistente dos que gritam.
as sereias lancinantes da exploração
o massacre moral da religião
o arame farpado social da comunicação
não cobrem os olhos abertos dos que lutam.
a vigilância, a atenção, os sentidos alerta
não deixarão firme a torre da violência
e quebrarão, como ondas quebram rochas,
a vossa malha que tanto aperta.
vem, sai à rua, com as pedras na mão,
não há revestimento que salve aquele canhão!
não é mais alta que a muralha
dos nossos corpos levantados numa só alma.
a lama negra em que rastejam
os canhões que nos apontam
os silvos de medos com que nos matam
não são mais robustos que a couraça resistente dos que gritam.
as sereias lancinantes da exploração
o massacre moral da religião
o arame farpado social da comunicação
não cobrem os olhos abertos dos que lutam.
a vigilância, a atenção, os sentidos alerta
não deixarão firme a torre da violência
e quebrarão, como ondas quebram rochas,
a vossa malha que tanto aperta.
vem, sai à rua, com as pedras na mão,
não há revestimento que salve aquele canhão!
- sem título -
e, por isso,
quando amanhecer
e eu for também o substrato dos outros,
e os outros o meio por que respiro,
seremos, até ao anoitecer,
da poesia fruto puro.
quando amanhecer
e eu for também o substrato dos outros,
e os outros o meio por que respiro,
seremos, até ao anoitecer,
da poesia fruto puro.
segundo todorov (poética)
"a literatura é a forma de arte em que a substância, a linguagem e o meio são um só."
a transcrição não é exacta, mas reflecte a tese de Todorov. e esta é das poucas teses que, por si só, são além de brilhantes, "poéticas".
a transcrição não é exacta, mas reflecte a tese de Todorov. e esta é das poucas teses que, por si só, são além de brilhantes, "poéticas".
Tuesday, March 25, 2008
nebulosa
dentro de mim
crescem estrelas,
e sinto-me ascender,
acender, em chamas,
em luz escondida
que me ilumina
em sorrisos e brilhos.
beijar-te, mesmo longe,
inteiramente, aprender-te
lentamente, como vejo uma flor
florescer. e o teu olhar,
sublime, envolve-me num sol só meu.
crescem estrelas,
e sinto-me ascender,
acender, em chamas,
em luz escondida
que me ilumina
em sorrisos e brilhos.
beijar-te, mesmo longe,
inteiramente, aprender-te
lentamente, como vejo uma flor
florescer. e o teu olhar,
sublime, envolve-me num sol só meu.
Thursday, March 13, 2008
(ab)surdo
mais um dia passava, frenético mas lentamente. lá fora os ruídos da rua, dos carros apressados, das palavras caóticas pela chuva metódica não chegavam aos meus ouvidos. o meu ruído era demasiado intenso. sobre ele nada poderia passar. as palavras da mulher que me limpou a secretária, as palavras do homem gordo que me dava ordens sentado, as palavras do colega que gabava as notas do filho, todas me passavam inexoravelmente sem provocar nenhuma vibração. todas se misturavam com o meu ruído, as minhas ilusões.
mais um dia, e o fumo de som que me invadia, tomava novamente conta de mim. pior, tomava mais e mais da minha alma. algo como o ranger constante de uma porta antiga. era esse o som da minha ilusão.
mas do ruído do meu próprio ser crescia a impossibilidade de ultrapassar as minhas entranhas. tudo à volta é o meu som. na secretária, pousados os lápis cansados de riscar e rabiscar a distracção. lá fora as árvores despidas são quem me reflecte. os meus únicos espelhos.
(...)
hoje à noite escrevo a nota em que me repouso. uma carta para ninguém, mas finalmente silenciosa.
"matei-me porque o silêncio é o meu único repouso. matei-me porque não consigo viver ao som da campainha que toca o som da minha vida."
ali mesmo no funeral, o colega do filho com boas notas diz para o homem do lado que não compreende, que nunca ouvira tal campainha mesmo trabalhando tão perto de mim. eu estranho porque aquele ranger soava tão alto - afinal o meu colega era surdo.
mais um dia, e o fumo de som que me invadia, tomava novamente conta de mim. pior, tomava mais e mais da minha alma. algo como o ranger constante de uma porta antiga. era esse o som da minha ilusão.
mas do ruído do meu próprio ser crescia a impossibilidade de ultrapassar as minhas entranhas. tudo à volta é o meu som. na secretária, pousados os lápis cansados de riscar e rabiscar a distracção. lá fora as árvores despidas são quem me reflecte. os meus únicos espelhos.
(...)
hoje à noite escrevo a nota em que me repouso. uma carta para ninguém, mas finalmente silenciosa.
"matei-me porque o silêncio é o meu único repouso. matei-me porque não consigo viver ao som da campainha que toca o som da minha vida."
ali mesmo no funeral, o colega do filho com boas notas diz para o homem do lado que não compreende, que nunca ouvira tal campainha mesmo trabalhando tão perto de mim. eu estranho porque aquele ranger soava tão alto - afinal o meu colega era surdo.
Wednesday, February 20, 2008
mutilação
rastejo na lama de todos nós,
sangue vivo dos lamentos humanos,
desumanos... mesmo primordiais.
cai o olhar em abandono,
um pano branco ondula no ar.
podem os abutres poisar, (vinde necrófagos ao festim!)
assomar-se da alma despojada de alegria e de tristeza,
saciar a fome,
dar graças à abundância
da nossa infinita pobreza.
já nem palpitam as veias,
a dor esvai-se lancinante
em rasgos de culpa e de perdão.
e os corpos exangues arrastam-se pelo chão.
sangue vivo dos lamentos humanos,
desumanos... mesmo primordiais.
cai o olhar em abandono,
um pano branco ondula no ar.
podem os abutres poisar, (vinde necrófagos ao festim!)
assomar-se da alma despojada de alegria e de tristeza,
saciar a fome,
dar graças à abundância
da nossa infinita pobreza.
já nem palpitam as veias,
a dor esvai-se lancinante
em rasgos de culpa e de perdão.
e os corpos exangues arrastam-se pelo chão.
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